Namorar em relação viúvo

Assexualidade

2019.04.18 06:42 trafans Assexualidade

Vejo que mesmo aqui pouco se fala sobre esse assunto. Mais algum assexual por aí? Ou alguém querendo aprender?
O que é assexualidade? Bom, não há um entendimento único e universal, mas no geral entende-se como a ausência de atração sexual ou a falta de interesse em práticas sexuais com outras pessoas (não decorrente de problemas médicos, psiquiátricos, reações a medicamentos, etc.).
O que não é assexualidade? Como dito, consequências de transtornos (como transtorno do desejo sexual hipoativo) ou tratamentos médicos (antidepressivos são conhecidos por afetar a libido), celibato ou abstinência sexual (que são atos voluntários, muitas vezes motivados por questões religiosas), frescura/medo de sair do armário como homo/uma fase/falta de conhecer a pessoa certa/trauma/não ter feito um sexo bom/etc (falar que é "uma fase" é o maior clássico).
Quantos assexuais existem? O mais comum é ouvir que 1% das pessoas são assexuais. Na famosa Escala de Kinsey, 1,5% dos homens foram considerados como categoria X (sem reações ou contatos socio-sexual), mas não se considerava a atração sexual em si. Em pesquisas mais recentes, Anthony Bogaert chegou ao número de 1% de pessoas que não sentiam atração sexual na Grã-Bretanha. No Brasil, uma pesquisa da Folha de 2010 aponta 7% das pessoas com nenhum interesse em sexo. Porém grande parte desse número eram viúvos, o que dificulta a interpretação dos dados nesse sentido.
Como assexuais podem ser felizes sem sexo? Simples, não dá pra sentir falta do que você não sente haha
Sobre atrações sexual, romântica e física: Ao não sentir atração sexual ou não querer fazer sexo com outras pessoas, mas ainda sim se apaixonar ou se sentir atraído aos outros de alguma forma, foi necessário distinguir o que a maioria das pessoas engloba numa única coisa. Pois veja, a ideia prevalente é de que as 3 coisas andam juntas: achar o corpo/rosto de alguém bonito, a vontade de transar com a pessoa e a vontade de ficanamoracasar. Claro que ninguém vai sentir vontade de casar com todo mundo que achar bonito, mas a ideia que se tem de gostar de alguém envolve, a princípio, as 3 coisas. Como diria Rita Lee, "amor sem sexo é amizade". Até que surgem aqueles que gostam (ou amam), mas sem sexo. Diante dessa aparente contradição, foi necessário discretizar as coisas, de onde esses conceitos se fazem úteis. De modo geral, pois cada pessoa sente de um modo diferente, a atração sexual seria a vontade, ou o desejo, de fazer sexo com alguém. A atração romântica seria a pura paixão, ou o desejo de se ter uma relação íntima com alguém. E a atração física, o mero sentimento de achar alguém bonito, desde aquela segunda olhada ao ver a pessoa até ficar excitado. Sim, uma coisa acaba influenciando a outra, mas são 3 sentimentos distintos. Dentro dessa perspectiva, assexuais só não sentem a atração sexual, podendo, assim, achar outras pessoas fisicamente atraentes e/ou se apaixonando, ou querer estar em um relacionamento.
Sobre libido: Dentro dessa perspectiva sexual, a libido (ou desejo) aparece como a vontade de satisfazer essa atração sexual com alguém. Assim, pode parecer contraditório um assexual ter libido. O que diferenciaria do conceito comum é a parte de estar "direcionada" a alguém, nesse caso estando contida em si, digamos. Desse jeito muitos assexuais ficam excitados e se masturbam, mas acaba aí, não tem a necessidade de envolver outra pessoa diretamente.
Sobre espectros, intensidade, área cinza e porquê "a" não é exatamente o oposto de "hétero/homo/bi/pan": A diferença entre hétero/homo/bi/pan está na relação do sexo/gênero entre as pessoas envolvidas, assim tem-se um espectro homo-hétero em polos opostos, com bi/pan englobando os dois lados. Mas um assexual simplesmente não está nessa escala, pois elas tratam de por quem se sente atração, não o quanto se sente, ou ainda, assexuais não sentem, enquanto o resto sente. Daí nasce o espectro assexual-sexual. É muito comum o termo allosexual, que representa quem não é assexual, mas "a" tem o sentido de negação também, o que leva a "não-não-sexual", eliminando a dupla negativa chega-se a "sexual". Voltando ao espectro, agora sim é algo mais coerente com o sentir e o não-sentir. De um lado quem sente, do outro lado quem não sente. Da própria natureza dos espectros, há algo entre dois polos, e esse algo foi conceituado como o que não se encaixa na assexualidade de forma "estrita", mas que aparentemente não está na mesma intensidade que quem está na sexualidade "plena". Por exemplo, alguém que passa meses ou até anos sem sentir atração sexual - ao mesmo tempo que a pessoa não é totalmente assexual, ainda tem uma sexualidade, mas mais "sutil" que a maioria das pessoas no lado sexual. Dessa consideração entre assexualidade-área cinza-sexualidade, surge a própria bandeira assexual. O preto, o cinza, o branco e o roxo. O roxo como cor da comunidade.
Sobre atrações primária, secundária e demis: Dentro do universo gray o caso mais conhecido são os demissexuais. Sentir atração após formar um forte laço afetivo. Na busca por mais conceitos que explicassem os comportamentos associados à atração, chegou-se a essa ideia de duas atrações distintas. A primária é aquela sentida imediatamente. A aparência, o cheiro, uma troca de olhares, um toque, uma cantada... tudo o que leva um até então desconhecido a ser atraente se encaixa. A secundária é a que vem com o tempo, através da amizade, carinho, confiança, admiração, comprometimento... Não é por todas as pessoas próximas que um demissexual vai sentir atração, mas é uma condição básica, de modo que com um desconhecido simplesmente não existe essa atração. Quanto tempo esse laço emocional leva para se formar? Não existe um tempo mínimo ou máximo. Pode ser questão de um mês, pode ser questão de um ano. Ou mais, ou menos. Não dá para predizer.
Duas matérias sobre para quem quiser ler mais: TAB - Assexuais (UOL) e Quem são os assexuais: relatos de brasileiros que não se interessam por sexo (BBC). E a tese de doutorado "Minha vida de ameba": os scripts sexo-normativos e a construção social das assexualidades na internet e na escola, da recém-falecida Elisabete de Oliveira, maior pesquisadora do assunto no Brasil. Bônus: Elisabete no programa "Gabi Quase Proibida" - Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4.
OBS: Faltou tempo, ainda vou escrever mais, mas podem contribuir ou fazer perguntas.
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